Quero entender, então escrevo. Está aqui, pois, tudo o que eu queria dizer e não disse. Tudo que ficou engasgado até hoje, está aqui. Escrito, escarrado e vomitado. A única possibilidade de expulsar a dor de mim , sem que seja necessário que eu morra, ou que você me aceite de volta.
Caminho descalça sobre cacos de vidro....
É sobre isso que quero falar: sobre como estive morrendo por não estar contigo. Como mudavam os meus dias se você não me ligava. Se eu pudesse escolher, dormiria até tudo passar. E vai passar. Falo sobre o que eu não sei. Como os apaixonados fazem. Os apaixonados desprezados. Os que sofrem por amor e acham que devem sempre falar sobre isso. Sobre as suas más condições. De estarem prestes a morrer, sabendo que não vão morrer.
....
Depois que você foi embora, eu não evitei sofrer. Escutei muita Maria Bethânia. Odiei existir naquela mulher Chico Buarque, que existiu em mim naqueles dias, se arrastando atrás da porta, e que existe ainda agora, aqui, sentada, enquanto escrevo.
Digressão. Bem, o que eu quero dizer é que, no dia em que você foi embora, não, não foi no dia, foi no dia seguinte. Não, não foi no dia seguinte, foi no outro. Bom, foda-se quando foi. Um dia, depois que você foi embora, reuni disposição para varrer a casa ainda uma vez. Eu entendia pouco ou quase nada do que eu queria fazendo aquilo. Que diabos quer alguém suprindo uma ausência com um cabo de vassoura? Era somente uma tentativa louca de, varrendo, encontrar ainda alguma última coisa que me lembrasse você. Que fosse a prova que você tinha de fato existido um dia. Podia ser qualquer coisa, um fio de cabelo, um pelo, um pentelho da última vez que fizemos amor. Ou menos até, podia ser. Se eu tivesse sempre à mão um microscópio para mostrar à toda gente, até uma bactéria que tivesse sido parte do seu corpo podia ser. “Restos de tecidos epiteliais mortos.” Os mesmos que cobriam seu organismo quando você estava aqui, e que agora cobrem a sua ausência no lado esquerdo da cama. Cubro-os toda noite com o mesmo edredon de penas de ganso gigante que cobre o meu corpo. O que restou de mim e o que restou de ti acomodados sob um mesmo lençol. Eu, você e os ácaros, unidos para sempre na sujeira daquela casa que eu nunca mais varreria até partir.
Será que você, assim como eu, entendeu o que é amar tão desesperadamente a ponto de ligar para a Lacuna Inc. querendo apagar a memória!? Justamente a memória, que é a única coisa que resta depois que tudo termina? Porque, veja bem, querer esquecer é horrível. E você sabia que eu perdi a tal ponto a noção da realidade quando você me abandonou que procurei na lista telefônica o telefone da Lacuna Inc. e quase liguei pro Jim Carrey pra perguntar se valia mesmo a pena, e dizer pra ele que, de qualquer forma, fosse como fosse, eu nunca apagaria da mente a Kate Winslet, por pior que tivesse sido uma história com ela....
(FY)

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